Se o problema é o assoreamento de reservatórios de água de usinas hidroelétricas o que mais vale a pena: fazer dragagens periódicas ou reflorestar as margens da represa para evitar a erosão? E se o fornecimento da principal matéria-prima da empresa tornar-se escassa ou indisponível para um negócio, qual o impacto? Em que medida a conservação de paisagens naturais favorece a arrecadação de pedágios de uma rodovia? Optar por produtos não madeireiros de extrativismo sustentável ajuda na regulação do clima global?

Um dos caminhos para responder a estas perguntas é demonstrar – quando apropriado – em termos econômicos, a ampla gama de benefícios proporcionados pelos ecossistemas e pela biodiversidade. O bom funcionamento dos ecossistemas é decisivo não só para a manutenção da vida, mas, também, dos negócios. Entretanto, muitas vezes estes fatores passam despercebidos na tomada de decisão.

No caso das indústrias e outros segmentos que usam recursos naturais como matéria-prima o vínculo é mais explícito. Para outros, como o terceiro setor, pode não parecer, mas a dependência está oculta na energia elétrica, no papel gerado por celulose ou da água para atividades cotidianas, só para citar algumas.

A abordagem de capital natural busca lançar luz sobre o valor dos recursos naturais em relação aos custos de produção de um produto ou serviço, enxergando a dependência e os impactos entre negócios e os recursos naturais. À medida que se procura valorar os recursos naturais, contesta-se a ideia de que estes insumos são ativos amplamente disponíveis e, portanto poderiam ser usados indefinidamente, sem considerar suas limitações.

Costanza e colaboradores foram um dos primeiros a levantar esta bandeira e calcular os valores do capital natural e dos serviços ecossistêmicos para o planeta. Em 1997 falava-se na média de 33 trilhões de dólares por ano. Desde então, estes valores são recalculados regularmente. O último estudo estimou em US $125 trilhões/ano e incluiu o cálculo de perdas pelas mudanças no uso da terra no valor de US$ 4.3 trilhões/ano.

Se o capital natural é entendido como estoque, os serviços ecossistêmicos são o fluxo. As categorias de serviços ecossistêmicos foram revistas recentemente e reorganizadas em três tipos: provisão, que seria, por exemplo, a capacidade da natureza em prover água, alimentos, etc; regulação, que inclui os serviços de polinização, clima dentre outros, e o cultural, que envolve a beleza cênica e paz de espírito, dentre outros.

Esta abordagem possibilita que empresas que dependem diretamente dos recursos naturais desenvolvam ações de conservação destes recursos como parte de sua estratégia, ja que sua escassez colocam em risco a produtividade e a saúde financeira dos negócios, acarretando também riscos para investidores.

O reconhecimento da importância do capital natural e dos serviços ecossistêmicos ganhou notoriedade com a publicação da Avaliação Ecossistêmica do Milênio (MEA, 2005). Mais recentemente, com o TEEB (The Economics of  Ecosystems and Biodiversity, na sigla em inglês), que em 2010 realizou um estudo internacional liderado pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), chamando atenção para os benefícios econômicos da biodiversidade e alertando para os custos crescentes de sua perda e da degradação dos ecossistemas.

A IPBES (Intergovernamental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services) órgão ligado à ONU, também gera estimativas financeiras dos benefícios da natureza para as pessoas. No caso da polinização por animais, estima-se que entre 5% e 8% da produção agrícola global deste serviço ecossistêmico, o que representa um montante que varia entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões. No Brasil, a riqueza gerada por meio dos polinizadores foi estimada em torno de US$ 12 bilhões. O valor econômico da natureza no continente americano foi estimado em ao menos US$ 24,3 trilhões por ano, sem considerar o ambiente marinho. Isto equivale ao PIB total do continente.

Riscos e Oportunidades

No Brasil, a discussão sobre a manutenção e integridade do capital natural e dos serviços ecossistêmicos é particularmente estratégica, ou deveria ser. Em 2017, a agricultura e o agronegócio, setores que dependem diretamente do capital natural e dos serviços ecossistêmicos, contribuíram com 23,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O mercado global já percebeu a importância do tema e as exigências sobre o desempenho socioambiental das empresas é crescente. A cobrança vem de diferentes lados: dos clientes, da matriz, de novos mercados (como o mercado europeu que impõem vários requisitos), de instituições financeiras, acionistas ou agências ambientais regulatórias.

A IFC (International Finance Corporation), por exemplo, o braço privado do Banco Mundial, exige um padrão de performance, dentre tantos outros, também para biodiversidade e serviços ecossistêmicos na hora avaliar a concessão e repasse de empréstimos. O índice americano Dow Jones e Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 avaliam dentre seus quesitos se a empresa avalia os serviços ecossistêmicos explicitamente. “É um motivador, claro, e as empresas reconhecem e passam a ter pessoas dedicadas a estratégias e práticas sustentáveis para atender às exigências”, comenta Natália Hummel, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces).

As regulações ambientais também são outro vetor que levam a transformações dentro da empresa. “Algumas legislações não tratam explicitamente de serviços ecossistêmicos, mas tangenciam muito o tema, como é o caso do Novo Código Florestal Brasileiro, a Lei da Biodiversidade e os próprios mecanismos financeiros compensatórios, para citar algumas. Essas regulamentações, ainda que menos evidentes, movimentam as empresas no sentido de se enquadrarem em termos ambientais”, completa a pesquisadora do GVces. “Tanto aspectos financeiros e regulatórios, de certa forma, auxiliam na construção de uma reputação positiva para o mercado e agregam valor à marca”, constata Hummel.

O interesse pelos riscos e as oportunidades associadas ao capital natural e serviços ecossistêmicos são temas que vem crescendo no setor privado. Um dos termômetros que captam este interesse é a iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), da FGV, e o Projeto TEEB RL (The Economics of Ecosystems and Biodiversity – Regional Local, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Desde 2013, estas iniciativas vêm desenvolvendo em parceria métodos simplificados, de baixo custo e baseados em dados de fácil coleta para o gestor empresarial conseguir usar na tomada de decisão diária e já aplicaram em mais de 40 casos. Os setores que se envolvem na iniciativa, em geral, são os mais dependentes dos recursos naturais como setor elétrico (hidrelétricas), agroflorestal e de cosméticos. Com isso, espera-se tornar a importância da biodiversidade e dos ecossistemas um ativo mais tangível nos negócios.

Segundo Luciana Alves, assessora técnica do Projeto TEEB Regional Local no Brasil, as grandes empresas reconhecem que o tema de capital natural é importante. Inicialmente queriam saber o que era e agora como podem aplicar. “É um tema de suporte para vários outros compromissos empresarias. Eles contribuem para compromissos corporativos regulatórios ou voluntários de políticas corporativas que a empresa tem como as cadeias de fornecedores e clientes”, explica Alves.

Grande parte do esforço destas iniciativas tem sido em desmitificar o tema, no sentido de criar a visão de uma fermenta a mais no processo, associada às já existentes. “Redução de emissões, mudanças climáticas, gestão do risco hídrico, estas outras agendas parecem separadas e quando na verdade estão integradas”, esclarece a Luciana Alves. “Muitas vezes o processo é mais simples do que se parece. Há casos de empresas que passam a incorporar poucos indicadores no questionário para fornecedores de suprimento, contabilidade e marketing”, explica Natália Hummel.

Embora seja mais simples do que se parece, a coleta de dados ainda é um desafio para a contabilização dos serviços ecossistêmicos acessados pela empresa. Outra questão tem sido integrar a coleta de dados com outras áreas da empresa.

A valoração dos serviços ecossistêmicos na empresa opera como um instrumento de diálogo da área de sustentabilidade com as demais áreas da empresa. “É como se fosse uma lente em diversos processos da empresa. A expectativa é ampliar as percepções em outras áreas da empresa, especialmente a alta liderança, que trata de diversos assuntos”, finaliza Alves.

 

 

2018-09-18T14:50:45+00:00

Sobre o Autor:

Bióloga, doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), atua na área de planejamento e avaliação de CT&I, com ênfase em gestão de programas de pesquisa em biodiversidade. Estuda Jornalismo Científico e acredita que a informação e o diálogo (+ uma pitada de esperança) são o caminho das melhores escolhas.