A produção de frutos das palmeiras de açaí dispersas na floresta são, em média, 25% superior daquelas que estão plantadas em monocultivo. A razão disto é que os açaizeiros são plantas altamente dependentes da polinização dos insetos e a floresta proporciona uma diversidade incrível desses visitantes. Nos cultivos isolados, a presença das abelhas nativas, um dos polinizadores consagrados, é menor. Elas preferem ambientes com maior variedade de floração para garantir a diversidade de recursos ao longo do ano. Mais uma evidência dos serviços ecossistêmicos proporcionados pela biodiversidade.

Estes resultados foram encontrados pelos pesquisadores da EMBRAPA Amazônia Oriental, Universidade Federal do Pará entre outras instituições. No estudo, os cientistas acompanharam 18 áreas no Delta do Rio Amazonas com diferentes graus de intervenção humana no manejo da palmeira (“extensiva” ou “intensiva”, com base no número de árvores açaí por hectare), das quais nove áreas em várzeas (planícies inundadas) e nove em terra firme.

Palmeira de açaí, Euterpe oleracea. Foto: Cristiano Menezes

Abelhas, moscas, besouros e vespas estão entre os principais grupos de visitantes das flores de açaí. São cerca de 200 espécies, das quais mais de 100 são polinizadores potenciais, ou seja, vetores animais que visitam tanto flores femininas quanto masculinas nas palmeiras de açaizeiro.

Considerando a frequência dos visitantes das flores da palmeira do açaí, sobressaiu-se a diferença da presença das abelhas nativas nas áreas de manejo intensivo e extensivo . As abelhas são polinizadoras natas haja vista a forte dependência pelos recursos das flores: pólen e néctar. “O grupo das abelhas é o mais sensível a alterações na estrutura da floresta. Quanto menor a diversidade vegetal, menor a diversidade de abelhas. Os outros grupos são menos sensíveis, porque têm histórias ecológicas diferentes. As abelhas são totalmente dependentes de pólen e néctar para criar seus imaturos, larvas, adultos. O açaí é uma espécie que tem um pico de florescimento nos meses mais chuvosos”, explica Márcia Motta Maués, pesquisadora da Embrapa, autora do estudo e também do Relatório Temático confeccionado pela BPBES sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos em parceria com a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador – REBIPP.

“Nas áreas de açaizais nativos com manejo de alto impacto, onde restou apenas as palmeiras de açaí, a quantidade e diversidade de polinizadores é menor. Em razão disto, a produção de frutos também diminui, pois a polinização das flores do açaí é altamente dependente do serviço prestado pelos insetos”, afirma Alistair Campbell para a Embrapa. Alistair é o primeiro autor do estudo e pesquisador pós-doutorado em polinização e ecologia aplicada na Embrapa Amazônia Oriental.

“O produtor querendo tornar a área mais produtiva elimina espécies arbóreas achando que tendo mais açaízeiros terá mais produção. Porém, quando ocorrem simultaneamente espécies arbóreas e arbustivas preserva-se o maior número de visitantes polinizadores e a estrutura da floresta. A manutenção da floresta é muito importante para a produção de açaí”, explica Maués.

A pesquisa coloca em pauta as práticas de manejo que melhor dialogam com o uso sustentável da biodiversidade. A conversão das áreas de várzea em “florestas de açaí” e o desmatamento generalizado da paisagem amazônica, provocam impactos negativos na presença de polinizadores e, por conseguinte, na produção de açaí. Juntos, essas descobertas destacam a importância da agricultura de baixo impacto não só para a biodiversidade, mas também para o bem-estar humano na região do estuário da Amazônia.

Produção de Açaí. Foto: Creative Commons (CC).

Práticas Sustentáveis

A palmeira do açaí (Euterpe oleracea Mart.) é nativa das florestas inundáveis do delta do rio Amazonas, onde é naturalmente abundante. Suas frutas ricas em antioxidantes têm sido um alimento básico das comunidades tradicionais da Amazônia. Mas agora são exportadas e vendidas em todo o mundo. A crescente relevância da cultura do Açaí no país fez o IBGE incluí-lo em sua Pesquisa Agrícola Municipal (PAM). No período de 2015-2016, a produção agrícola nacional de açaí aumentou de 1,0 milhão de toneladas para 1,1 milhão. O maior estado produtor foi o Pará, com 98,3% do total nacional  gerando US $ 150 milhões para a economia local.

A produção de açaí está se consolidando em duas práticas agrícolas. Uma em planíces inundáveis, manejada, sobretudo por ribeirinhos em áreas isoladas e é meio de susbisistência de cerca de 25 mil ribeirinhos, que vivem em comunidades isoladas e com poucos meios alternativos de emprego. A outra em fazendas em terras firmes estão localizadas em áreas periurbanas com melhor acesso aos mercados locais e de propriedade de grandes produtores. A ocupação em terra firma foi possível graças à um programa de melhoramento do açaí, que resultou na criação da cultivar de açaizeiro “BRS Pará” pela Embrapa em meados dos anos 2000.

Independente da alternativa de produção, ambas demandam manejo sustentável. Para a produção em terra firma é preciso de soluções para introdução de polinizadores, melhoramentos genéticos, irrigação e fertilização inteligentes, manutenção de florestas no entorno. Nas várzeas, a manutenção de diversos habitats florestais é necessária para manter os altos níveis de produção do fruto.

 

 

Para sabe mais:

Campbell AJ, Carvalheiro LG, Maués MM, et al. Anthropogenic disturbance of tropical forests threatens pollination services to açaí palm in the Amazon river delta. J Appl Ecol. 2018;00:1–12.

 

2018-03-02T15:16:05+00:00

Sobre o Autor:

Bióloga, doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), atua na área de planejamento e avaliação de CT&I, com ênfase em gestão de programas de pesquisa em biodiversidade. Estuda Jornalismo Científico e acredita que a informação e o diálogo (+ uma pitada de esperança) são o caminho das melhores escolhas.