Prof. Carlos Joly do Departamento de Botânica da Unicamp e um dos coordenadores da BPBES. Foto: Antoninho Perri.

O Boletim Interfaces entrevista o Prof. Dr. Carlos Alfredo Joly, atualmente uma referência nacional e internacional em programas de biodiversidade. Fundador e coordenador do Programa Biota/Fapesp, da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, e está entre os primeiros Membros do Painel Multidisciplinar de Especialistas da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – IPBES. Também é Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências.

Joly é formado em Ciências Biológicas pela USP (1976), mestrado em Biologia Vegetal pela UNICAMP (1979), PhD em Ecofisiologia Vegetal pelo Botany Department – University of St. Andrews, Escócia/GB (1982), Pós-Doc pela Universität Bern, Suíça (1994). Atua nas áreas de Ecofisiologia Vegetal e Conservação da Biodiversidade, tendo publicado + de 100  trabalhos em periódicos especializados, além de formar 26 mestres e 25 doutores. Editou 14 livros, com destaque para a série Biodiversidade do Estado de São Paulo: síntese do conhecimento ao final do século XX, o atlas Inventário florestal da vegetação nativa do Estado de São Paulo e o livro Diretrizes para a Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado de São Paulo.

 

Boletim InterFaces – Como a sua experiência como coordenador do Programa Biota/Fapesp e Membro do Painel de Especialistas da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) contribuem para a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES)?

Carlos Joly – A experiência principal no [Programa] Biota foi de aprender a compartilhar dados e conseguir utilizar estes dados para o aperfeiçoamento de Políticas Públicas. Ou seja, ao invés de trabalhar com informação localizada, fragmentada, passamos a trabalhar com informação integrada tanto do ponto de vista geográfico, como temático, quanto de grupos taxonômicos. Foi  esta integração que permitiu elaborarmos os mapas de áreas prioritárias para a conservação e restauração de biodiversidade que se transformaram em uma ferramenta para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente [de São Paulo] e outras Secretarias no aperfeiçoamento de Políticas Públicas.

O IPBES mostrou o grande aprendizado de trabalhar em uma organização de nível internacional, com uma somatória de experiências pessoais, geralmente em nível nacional ou em grandes regiões, em uma escala diferente da que estávamos trabalhando. Trouxe também a ideia de que teríamos que desempenhar simultaneamente quatro funções: elaborar diagnósticos, que é a mais conhecida; a de desenvolver fermenta para que os resultados dos diagnósticos possam ser utilizados e incorporados na ação; a identificação de lacunas de pesquisa, não para desenvolvimento de pesquisa, mas para estimular agências nacionais e internacionais a promoverem pesquisas naquela área; e, uma das mais importantes para mim, a questão de capacitar profissionais e instituições em todos os países para utilizar efetivamente os resultados dos diagnósticos.

Ao lado disso, a experiência da negociação política com representantes de mais de 100 países, de discutir textos de resultados de diagnósticos, negociar e conseguir com que isso seja finalmente aprovado através da elaboração de sumários, que já são escritos em uma linguagem para o tomador de decisão, que não é a  linguagem acadêmica. É uma negociação na qual é preciso lidar com países em situações de desenvolvimento, econômias, políticas e de uso sustentável da biodiversidade e serviços ecossistêmicos completamente distintas.

Esse foi um período de grande aprendizado para resultar na proposta de uma Plataforma Nacional. Por um lado, a experiência do Biota, traz a ideia de compartilhamento de dados fundamentados e resultados consistentes gerando a melhor informação científica disponível para aperfeiçoar políticas. Somando-se a  aprendizagem de negociação da IPBES, na qual os resultados não são exatamente como se quer e também não são exatamente como outros atores desta mesma arena querem. No final, no consenso ninguém fica extremamente feliz, mas todos estarão satisfeitos por ter chegado num acordo comum aceitável

Boletim InterFaces – O que a BPBES pretende ser diferente de todas as iniciativas que surgiram antes?

Carlos Joly – A BPBES traz de inovador, justamente o fato de estar reunindo pessoas que tiveram experiências de trabalhar em diagnósticos do IPBES. Portanto, já treinadas em transformar resultados científicos de textos sintéticos e traduzir para uma linguagem acessível a tomadores de decisão.

O problema do Brasil em relação à biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos é que nós temos uma pesquisa científica de altíssima qualidade, grupos de pesquisa de excelência internacional, mas não temos nenhuma instituição em nível nacional que reúna e integre estas informações para que elas possam de fato servir para o balizamento e aperfeiçoamento de políticas. É a mesma situação que tínhamos no Estado de São Paulo antes do início do Biota. Só que não é a função da Plataforma promover novas pesquisas. A BPBES não tem os mecanismos de financiamento, como o Biota tinha, para poder promover essa integração e o preenchimento de lacunas, mas tem a capacidade de promover essa integração, identificar lacunas e mostrar que já temos conhecimento suficiente para tomar decisões de desenvolvimento muito melhores do que as que temos tomado e, ao mesmo tempo, precisamos continuar a desenvolver e aperfeiçoar a pesquisa nas diferentes regiões do Brasil.

Boletim InterFaces – Como envolver diferentes atores nesse processo?

Carlos Joly –  Esse será nosso grande desafio. Estamos fazendo grupos de discussão com atores de diversos setores. Fizemos reuniões com representantes de governo, organizações não governamentais, detentores e pesquisadores que trabalham com conhecimentos indígenas e tradicionais. Acho que faremos outras reuniões, porque nós queremos produzir um diagnóstico que seja uma ferramenta, um ponto em comum entre diversos atores. Isto não é fácil. Não acho que vamos conseguir plenamente neste primeiro diagnóstico, mas é um exercício extremamente importante. Este primeiro diagnóstico vai mostrar a força que a participação destes diversos atores tem. Nós temos a tradição aqui no Brasil de posições antagônicas. Temos o pessoal da conservação contra os ruralistas. Temos o pessoal de conhecimento tradicional e indígena contra o setor do agrobusiness, ou da construção de hidrelétricas. Este antagonismo dificilmente leva a soluções que tenham impactos de longo e médio prazo.

Boletim InterFaces – Como a Plataforma Brasileira pretende alcançar os tomadores de decisão?

Carlos Joly – Esta é a etapa mais complexa, digo isso tanto da minha experiência na IPBES quanto no Biota. Mesmo quando se consegue uma interlocução boa com parte dos tomadores de decisão, por exemplo, na época do workshop das áreas prioritárias no Estado de São Paulo, fizemos um trabalho muito bom junto com a Secretaria de Meio Ambiente e, como dissemos antes, o resultado do workshop passou a ser usado como uma ferramenta. Mas decisões no nível de Resoluções  podem ser facilmente revogadas pelo próximo governante. A garantia para que de fato em médio e longo prazo, as políticas permanecessem é que elas fossem aprovadas pelo parlamento, tanto em nível estadual quanto nacional. Mas isto torna a negociação  muito mais complexa e imprevisível. Então a negociação continuará sendo com o executivo. Ainda assim, no Brasil nós temos o problema de que há um certo isolamento ou fragmentação dos ministérios. O fato de negociar com ministério seja de Meio Ambiente ou Ciência e Tecnologia não é suficiente para que estas políticas sejam implementadas de fato. Acho que a gente precisa conseguir a interlocução com ministérios como o de Planejamento  e da Fazenda, que são ministérios que de fato vão programar a liberação de recursos para determinadas políticas, viabilizando sua implementação. E isso vai ser um aprendizado e um desafio, pois não temos acesso tão facilitado como nos Ministérios de Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente ou Relações Exteriores. Não há uma receita, mas eu entendo que nós precisamos ter um produto para negociar. Precisamos do primeiro Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, com seu primeiro sumário para tomadores de decisão, para aí sim buscarmos a interlocução mais efetiva com estes ministérios que de fato ditam a política de desenvolvimento do país.

2018-02-28T15:30:57+00:00

Sobre o Autor:

Bióloga, doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), atua na área de planejamento e avaliação de CT&I, com ênfase em gestão de programas de pesquisa em biodiversidade. Estuda Jornalismo Científico e acredita que a informação e o diálogo (+ uma pitada de esperança) são o caminho das melhores escolhas.