Neste ensaio [1] publicado pelo Social Science Research Council (SSRC), Eduardo S. Brondizio enfatiza que colaboração interdisciplinar é fundamentalmente um processo reflexivo, inerente a qualquer produção de conhecimento. Brondizio argumenta que disciplinas como domínios de produção de conhecimento podem servir como plataformas produtivas de colaboração  interdisciplinar, mesmo que disciplinas, como estruturas organizacionais, ainda sejam um obstáculo. Usando como exemplo uma ferramenta pedagógica para reflexão interdisciplinar sobre problemas socioambientais, Brondizio argumenta que a diversidade de perspectivas e abordagens, mesmo em tensão umas com as outras, é essencial para a compreensão de problemas cada vez mais complexos.

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Por Eduardo S. Brondizio

Tenho percebido que os desafios de trabalhar dentro e entre disciplinas, ou no campo com populações locais, ou em programas intergovernamentais têm mais semelhanças do que diferenças. Em cada caso, fazemos parte de culturas e subculturas moldadas por histórias e mitos de origens, ancestrais, linguajar e jargões, normas e códigos morais, instituições e ritos de passagem. Nossas várias identidades, profissional, disciplinar, étnica, política, são situacionais, as vezes contraditórias, e podem ser reforçadas ou abrandadas dependendo do contexto. Nós amamos e odiamos os estereótipos associados a essas identidades, por vezes reagindo com etnocentrismo (ou ‘disciplinarismo’), e por outras abraçando a riqueza da experiência e aprendizado que surge das diferenças.

Discussões sobre interdisciplinaridade tendem a colocar em evidência essas tensões e oportunidades “interculturais”. Em meio a estas, muitas vezes nos vemos defendendo territórios disciplinares, a proteção de identidades profissionais, confrontando epistemologias com ardor e até reivindicando métodos como propriedade disciplinar, mesmo que em nossas práticas transgredimos tudo isso quando em frente a problemas que requerem múltiplos tipos de ferramentas analíticas e colaboração. E assim é a interdisciplinaridade, não um processo institucionalizado ou uma estrutura, e sim uma parte intrínseca do processo de pensar criticamente sobre problemas, questões e evidências, não importa se o assunto é restrito ou amplo. Uma série de excelentes ensaios na ITEMS [2] vem explorando algumas dessas questões nos últimos meses. Aqui, aproveito a oportunidade para compartilhar uma perspectiva obtida a partir de longos anos de trabalhos colaborativos em questões socioambientais, do local ao global, na região Amazônica e em outros lugares.

 

A natureza da colaboração acadêmica

“Por natureza, a produção de conhecimento transcende divisões organizacionais, não importa se estes emanam dentro ou entre disciplinas.”

Ao debater a interdisciplinaridade, muitas vezes misturamos dois sentidos do termo disciplina: aquele que se refere a estruturas organizacionais com aquele que se refere a um domínio de produção de conhecimento. Essas duas dimensões do termo disciplina podem estar interligadas pela história, nosso próprio imaginário e/ou pela maneira que organizamos nossas instituições académicas, mas não estão necessariamente correlacionadas. Por esse motivo, a definição de o que é conhecimento disciplinar e interdisciplinar muitas vezes criam mais empasses desnecessários do que debates produtivos. Por natureza, a produção do conhecimento transcende limites organizacionais, sejam estes limites internos ou externos às disciplinas. Por exemplo, problemas socioambientais envolvem questões sociais, politicas e biofísicas, factuais e subjetivas sobre a natureza e a natureza humana, questões que são materiais e imateriais, que dependem de diversas formas de evidência, que podem ser observadas e/ou inferidas de múltiplas maneiras, em múltiplas escalas. Qualquer separação disciplinar destas dimensões é apenas um incidente histórico e/ou pragmatismo analítico, que pode ser útil e produtivo ou fragmentado e desastroso. A complexidade dos problemas socioambientais exige inerentemente formas complementares de conhecimento, visões e valores, abordagens e níveis de análise. É aqui – na integração e complementaridade – que disciplinas — como estruturas organizacionais – mostram suas limitações. Ao invés de nos preocuparmos com rótulos disciplinares e/ou territórios organizacionais, é mais produtivo focar nossos esforços na discussão e análise colaborativa sobre problemas e no processo de formular arcabouços conceituais. Ou seja, colocar nossos esforços naquilo que nos ajudem a alavancar o valor dos nossos vários domínios de conhecimento e na complementaridade das nossas experiências para a compreensão de problemas complexos.

Em outras palavras, seja praticada individualmente ou em colaboração, a interdisciplinaridade é o processo pelo qual se considera criticamente como os problemas podem ser abordados a partir de perspectivas diferentes, quais questões são pertinentes a quais níveis de análise e os tipos e diversidade de evidências que podem enriquecer a compreensão de um problema. Este processo é intrinsecamente intersubjetivo, e pode ocorrer dentro, entre e além das disciplinas. Ele presume o valor da experiência e de conhecimentos não acadêmicos, de forma que contribuam para uma melhor compreensão de “quebra-cabeças” maiores de que cada uma das nossas especialidades.

Brondizio trabalhando com comunidades, agricultores e colegas em diferentes partes da Amazonia. Foto: Center for the Analysis of Social-Ecological Landscapes (CASEL).

Disciplinas não são monolitos

Há uma infinidade de valiosas reflexões sobre as raízes, as definições, os méritos e os males das disciplinas acadêmicas, sua evolução e subdivisão desde o século XIX, a sua perpetuação através de estruturas institucionalizadas e formas de educação, suas sofisticações técnicas e também suas limitações para abordar e contribuir para soluções de problemas complexos. Essas questões vem sendo discutidas em planos estratégicos de fundações científicas, institutos de pesquisa e universidades nas últimas duas décadas ou mais. No entanto, nem sempre essas discussões refletem a prática real dentro de “disciplinas”. Embora possamos estar reproduzindo ideias sobre disciplinas originárias nos meados do século XX, em geral (e não desprezando alguns bastiões de arrogância disciplinar), disciplinas permanecem dinâmicas e entrelaçadas de muitas maneiras criativas. Acadêmicos radicados em suas disciplinas estão sempre quebrando moldes antigos, embora muitas vezes se vejam presos a contextos organizacionais e/ou a uma cultura disciplinar que limite (e mesmo condene) tal dinamismo.

No entanto, há tanta diversidade dentro de disciplinas que pressupostos (no geral esteriótipos) sobre o que uma determinada disciplina “é” dificilmente reflete o que realmente se “faz” no âmbito desta. O problema começa com definições e classificações de disciplinas, que podem chegar a dezenas ou centenas, organizadas em vários tipos de hierarquias. Novas “disciplinas” são criadas o tempo todo na convergência ou divergência de áreas de conhecimento e de organização institucional. Além disso, o que é interdisciplinar hoje pode ser disciplinar amanhã. As disciplinas mais “tradicionais” tornaram-se tão amplas e diversas que é difícil falar sobre coerência interna. Não é incomum que colegas em um mesmo departamento disciplinar sejam completamente alheios à área de especialização do outro – incluindo teorias, conceitos e métodos relacionados – que no entanto podem ser compartilhados confortavelmente com colegas de fora de sua “disciplina”, mas trabalhando em problemas semelhantes. Mesmo em grupos que trabalham em questões semelhantes dentro de uma disciplina, como em questões socioambientais, pode-se encontrar vocabulários e enquadramentos conceituais completamente diferentes dependendo da orientação teórica de cada um.

Ainda assim, mesmo que se considere o termo “disciplina” de utilidade limitada, o mesmo problema se repete para conceitos que o tentam corrigi-lo e reinventá-lo por prefixos, seja multi-, inter-, cross-, pluri- ou trans- (disciplinaridade). Além das referências gerais a diferentes tipos de combinações possíveis, você já encontrou definições de um desses conceitos que o satisfaça? Muitas vezes, eles criam mais desentendimentos do que um engajamento produtivo, frequentemente estereotipando disciplinas como restritas e limitadas, ou mesmo  como relíquias históricas. Há pouca esperança de convergência em torno destes termos, e talvez não seja mesmo necessário. Mas há um ponto relevante nessas discussões: elas chamam a atenção para o impacto da organização institucional na fragmentação do conhecimento e à distância que este processo criou dentro da própria academia e entre esta e a sociedade. Reflexões sobre interdisciplinaridade oferecem uma oportunidade para revigorar as ciências sociais (e outras) de seus próprios conflitos, incoerências e crises de confiança e identidade.

 

O desafio de síntese conceitual na antropologia ambiental e além

Muitos campos das ciências sociais vêm se dedicando a profundas reconsiderações sobre como a ciência é praticada e conhecimento produzido; que forças de poder operam dentro da ciência; que problemas e soluções são priorizadas e para quem; e quem se beneficia de diferentes tipos de evidência e narrativas da realidade. Se essas discussões são ouvidas ou não fora da academia, há mais de 40 anos disciplinas como a antropologia vêm refletindo sobre estas questões, ao mesmo tempo em que confrontando a transformação social, econômica e ambiental do mundo, e o papel da ciência por detrás destas transformações. Essas reflexões, por vezes turbulentas, são  certamente de valor inestimável.

Considere os debates recentes em torno do conceito do Antropoceno [3]. O conceito de Antropoceno colocou em evidencia uma mudança de estado no sistema terrestre servindo este como um conceito ponte para as ciências naturais, e progressivamente ganhou importância nas ciências sociais e nas humanidades. No entanto, a interpretação generalizada e descontextualizada nas ciências naturais sobre a contribuição da humanidade para as mudanças globais, rotulando a ‘espécie humana’ como uma força global unitária, minimizou a papel da historia, das relações políticas e econômicas por trás de 500 anos de transformação radical de um planeta repleto de desigualdades sociais. As ciências sociais e as humanidades contribuíram diretamente para tornar estas discussões mais inclusivas e atenta a complexidade da realidade socioambiental global, e com isto a promover novas redes e programas de colaboração.

Meu próprio campo de antropologia ambiental passou de certa maneira por um processo de subespecialização desde a década de 1960, à medida que a atenção às dimensões cultural, ecológica, político-econômica, histórica, cognitiva e simbólica das relações homem-ambiente foram progressivamente se desenvolvendo, cada qual em reação a abordagens anteriores. Comunidades produtivas inteiras, interdisciplinares em seus próprios termos, hoje são formadas em torno e entre estas dimensões. Este processo contribuiu para avançar significativamente nossas ferramentas conceituais e análises de relações homem-ambiente, ao mesmo tempo em que distanciando o campo de teorias monolíticas e deterministas e  de dicotomias simplistas, como aquela entre cultura e natureza.

Desde a década de 1980, muitos antropólogos ambientais e geógrafos vem chamando a atenção para a importância de pesquisas colaborativas em torno problemas comuns, da necessidade da integração de níveis e escalas de análise, da necessidade de evitar dualismos e determinismos na análise socioambiental. Independentemente de serem reconhecidos ou não, essas reflexões têm sido fundamentais para o avanço das pesquisas socioambientais atuais, em nível local ao global. No entanto, embora nós consigamos reconhecer e valorizar a importância de cada uma destas peças do quebra-cabeça socioambiental, sínteses conceituais que integrem estas perspectivas em novas maneiras de abordar e pensar a complexidade dos problemas socioambientais atuais continuam elusivas [4]. Neste sentido, a antropologia ambiental é um reflexo das ciências sociais e ambientais mais amplamente. Estamos em um momento onde mais esforços são necessários para o desenvolvimento colaborativo de arcabouços conceituais que possam unir e alavancar as contribuições de diversas comunidades e especialidades, reconhecendo e refletindo múltiplas dimensões e perspectivas  inerentes a problemas socioambientais. Na verdade, estamos testemunhando um momento institucional decisivo na história das disciplinas, já que o Conselho Internacional de Ciências (International Council for Science ou ICSU) e o Conselho Internacional de Ciências Sociais (International Social Sciencee Council ou ISSC) decidiram pela unificação em Outubro de 2017 e se chamará International Science Council.

Este processo requer humildade, reflexividade e dedicação a ouvir e aprender a linguagem e historia das áreas envolvidas; um esforço e investimento significativo que nem todos preferem se engajar. Por isto, embora os esforços interdisciplinares sejam muitas vezes considerados como antídoto para a fragmentação disciplinar, eles podem ter efeitos perniciosos, caso não seja dada atenção suficiente à história e debates que marcaram o desenvolvimento de um domínio de conhecimento, incluindo a história de teorias, conceitos e métodos. Um repertório de especialistas “interdisciplinares” em torno de uma questão socioambiental, sem essa reflexão histórica, provavelmente levaria a uma interpretação tão estreita quanto à alternativa que se tenta superar. Como o debate do Antropoceno ilustra, a história das ciências sociais, e reflexividade sobre sua própria participação nos processos que moldaram a realidade socioambiental atual, representam um capital intelectual fundamental para a compreensão de problemas que estão na intersecção entre processos locais, nacionais e globais: mudanças ambientais e climáticas, interdependência economia, política e demográfica global; persistência de desigualdades sociais; e assim por diante. Neste sentido, o maior desafio das ciência sociais representa a sua maior oportunidade: valorizar seu capital histórico, diversidade e complementaridade de abordagens e domínios de conhecimento. Contudo, este processo exige um envolvimento mais proativo entre comunidades acadêmicas e não acadêmicas em torno questões transversais que dependem , mas estão acima de cada uma de nossas especialidades.

Para abordar esta questão, vou refletir sobre a minha própria prática em trabalhar dentro e entre disciplinas e com conhecimento indígena e local, na sala de aula, no campo e em arenas de colaboração internacionais e intergovernamentais.

 

Interdisciplinaridade como um processo reflexivo e colaborativo

Na minha experiência trabalhando com diversos tipos de problemas socioambientais e com diversos grupos de pessoas, percebi que colaborações frutíferas começam com um esforço conjunto sobre como “problematizar” uma determinada questão de interesse comum. Ou seja, o processo de definição e formulação do problema em questão, da construção de uma narrativa sobre o problema, da elaboração de questões que ajudam a entender diferentes partes deste e apreciação das diversas formas de evidência que estas questões podem envolver, e suas implicações. Um processo de “problematização” inclusivo é o primeiro passo para o desenvolvimento de um arcabouço conceitual e analítico com maior chance de representar a complexidade de um problema e aqueles (humanos e não humanos) afetados pelo mesmo.

Na minha prática de pesquisa e ensino venho usando (de forma implícita ou explícita) uma matriz de quatro quadrantes, como mostrado na Figura 1, para facilitar exercícios de reflexão e elaboração de desenho de pesquisa. A ideia é promover uma discussão na qual alunos e/ou colegas considerem um problema a partir de diferentes perspectivas (“framings”) e formas de conceitualização, incluindo a formulação de questões de diferentes naturezas e níveis de detalhe, evidências e critérios de avaliação, e implicações para coleta de dados e opções analíticas. No centro da figura, considera-se uma questão ou problema, que poderia estar dentro de um domínio disciplinar ou além, por exemplo, relacionado a mudanças climáticas, governança de recursos comuns, pobreza e segurança alimentar, ambiente e bem-estar, mudança do uso do solo, e assim por diante. É importante começar com o problema para considerar como enfrentá-lo por meio de diferentes lentes teóricas e orientações epistemológicas, as quais também ajudam a pensar questões em diferentes níveis de detalhe. As diferentes dimensões de um problema e as questões que se colocam, no entanto, dependem de se considerar diferentes tipos de evidências, e o que estas oferecem dependendo no nível de análise ou nível de generalização e profundidade desejados. É interessante notar que questões de natureza mais objetiva e observável não necessariamente promovem mais convergência de perspectivas do que questões de natureza mais subjetiva e inferida. Independentemente, o importante é facilitar um processo de consideração explícita sobre a natureza e escopo de diferentes questões e formas de evidência em torno de um problema, o que se ganha e o que se perde com estas escolhas.

Figura 1: Processo de pesquisa reflexivo: elicitação do problema de pesquisa, definição das questões, elicitação dos tipos de evidência e ferramentas de coleta de dados. @E.Brondizio (Antropologia – Universidade de Indiana) Curso E600 – Desenho de pesquisa e Elaboração de Propostas.

As questões socioambientais são particularmente úteis para ilustrar a complementaridade e interdependência de múltiplas formas de conhecimento, tipos de questões e evidências, incluindo sistemas de conhecimento de populações locais e indígenas e de outros atores envolvidos [5]. Questões socioambientais variam de acordo com a escala espacial e temporal, dimensões naturais e sociais, materiais e simbólicas, comportamentais e cognitivas, físicas e fenomenológicas, econômicas e políticas, religiosas e artísticas. Acredito que maioria das pessoas concorda que no contexto de problemas socioambientais estas múltiplas dimensões são complementares e interdependentes. O desafio então é articular a complementaridade de abordagens e formas de conhecimento contribuindo para a compreensão de um quebra-cabeça maior, incluindo as possíveis contradições que venham a emergir de diferentes orientações teóricas e metodologias [6].

Isso exige considerar criticamente as implicações da formulação de um problema e questões relacionadas para a escolha de evidências, e vice-versa. Reconhecer que nossas evidências têm naturezas diversas e muitas limitações, não importa se oriundas nas ciências sociais ou naturais ou nas humanidades, é uma parte importante do processo colaborativo e fundamental para compreendermos onde estão as maiores carências de conhecimento. Questões socioambientais são sempre multidimensionais, com escalas intercruzadas, impregnadas de valores sociais, com questões e evidências que variam no grau de objetividade e subjetividade. Neste gradiente objetivo-subjetivo, evidências também variam de mais “observáveis” a mais “inferidas”. O balanço entre perdas e ganhos de diferentes combinações de evidências é relevante para qualquer área de pesquisa porque chama a atenção para os tipos de valores sociais que estão sendo priorizados na análise e na seleção de critérios avaliativos que irão orientar nossas interpretações e recomendações sobre um problema. A maioria dos problemas socioambientais exige clareza sobre quais critérios de avaliação estão sendo considerados, quais valores estão sendo representados, como benefícios e custos estão sendo distribuídos, para quem, em que prazo, quem se beneficia dos diferentes tipos de soluções, como as combinações de perdas e ganhos estão sendo analisadas e quem ou o que define medidas de sucesso.

Uma parte importante do processo de pesquisa acima mencionado envolve a elicitação de um “arcabouço conceitual” (conceptual framework) que mostre como um problema está sendo abordado. Na verdade, uso o termo “arcabouço conceitual” com algum receio. O termo é polissêmico e evoca imagens diferentes nas mentes das pessoas e, como tal, pode facilmente descarrilhar a conversa para domínios improdutivos. Porém, a intenção é chamar atenção para a importância de se articular a ‘visão maior’ do problema de maneira a mostrar as múltiplas partes de um quebra-cabeça e suas inter-relações. Como artefato analítico, arcabouços conceituais podem ser expressos de forma narrativa (por exemplo, os pressupostos que informam análises em Ecologia Política) ou formas esquemáticas/fluxogramas de sistemas (por exemplo, o arcabouço de análise institucional [IAD] e de análise de sistema social ecologico [SES] desenvolvidos por Elinor Ostrom e colegas).

Apesar da proliferação de arcabouços conceituais socioambientais nos últimos anos (um novo sintoma de fragmentação?), estes tem sido responsáveis por uma parte significativa dos avanços na pesquisa socioambiental desde os anos 90, um processo visível em particular no âmbito de pesquisas ligando processos locais a mudanças ambientais regionais e global. Estes vem servindo como ferramentas (intersubjetivas) que facilitam colaborações dentro e entre disciplinas e domínios de especialidades. Elinor Ostrom referia-se a arcabouços conceituais como mapas metateóricos que descrevem explicitamente os principais elementos/variáveis de um problema, suas inter-relações e formas de retroalimentação; e, como “mapas”, eles podem ser desdobrados em diferentes níveis de análise e detalhe para fornecer uma direção comum ao processo de pesquisa, porém permitindo a cada componente (especialidade) de contribuir a compreensão de um problema maior. Um arcabouço conceitual pode acomodar diferentes teorias e modelos analíticos, os quais podem ser avaliados em suas limitações e contribuições para diagnosticar e explicar um determinado problema [7].

Disciplinas, como domínios da produção do conhecimento, continuarão a servir como plataformas para promover a compreensão de questões e dimensões específicas de problemas complexos. O problema porém permanece na medida em que disciplinas, como estruturas organizacionais, poderão promover e encorajar colaborações e criatividade que contribuam para uma melhor compreensão de problemas socioambientais urgentes. Enquanto muitas universidades clamam o valor do trabalho interdisciplinar, ainda é desafiante fazer pesquisa interdisciplinar dentro de contextos institucionais acadêmicos. À medida que as ciências sociais, e outras, buscam novos modi operandi, devemos nos voltar para nossas próprias narrativas de valorização da diversidade e o respeito pelas diferenças, colocando-as em prática através de colaborações e complementaridades. Humildade, reflexividade e abertura para ouvir diversas perspectivas, nos ajudarão a superar as pseudocompetições e as disputas territoriais entre disciplinas em busca de ‘tensões mais produtivas’ e criativas em torno de problemas cada vez mais complexos.

Agradeço os comentários e as sugestões de Daniel Cole, Stacie M. King, Andrea D. Siqueira, Hien Ngo, Richard Wilk, Emilio Moran, Ron Kassimir, Rodrigo Ugarte e inúmeros colegas e estudantes que forneceram comentários durante um seminário no Center for the Analysis of Social-Ecological Landscapes (CASEL), da Universidade de Indiana – Bloomington. Agradeço especialmente a Paula Drummond de Castro pela versão inicial da tradução para o português deste ensaio.

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Eduardo S. Brondizio é professor de antropologia na Indiana University-Bloomington, onde foi Chefe do Departamento de Antropologia de 2007 a 2012. Ele atualmente dirige o Center for the Analysis of Social-Ecological Landscapes (CASEL). Trabalha na Amazônia há três décadas, com foco no estudo das populações rurais, economia e demografia doméstica, ações coletivas e instituições e mudanças no uso do solo, com atenção ao papel de mercados globais, programas de desenvolvimento, politicas de conservação e mudanças climáticas. Durante a última década, este trabalho se expandiu para o estudo das redes rurais-urbanas, a vulnerabilidade urbana às mudanças climáticas e o impacto da expansão das conexões interurbanas nas áreas rurais e indígenas. Brondizio vem contribuindo para o desenvolvimento de metodologias que integram a etnografia, levantamentos socioeconômicos, análise institucional, análise ambiental e análise geoespacial. Ele mantém um programa de pesquisa ativo na Amazônia, além de dedicar-se a iniciativas globais de sustentabilidade. Brondizio atua em inúmeros conselhos científicos internacionais, incluindo o Comitê Científico de Future Earth, do programa Brasileiro Rede Clima, e da iniciativa Ciência da Sustentabilidade da UNESCO. Atualmente, é cocoordenador do Diagnóstico Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (2016-2019) da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES). Brondizio atua como coeditor-chefe da Current Opinion on Environmental Sustainability (Elsevier).

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[1] Traduzido com permissão para divulgação de Items/Social Science Research Council (SSRC). Texto original “Interdisciplinarity as Collaborative Problem Framing”, publicado em 17/10/2017.
[2] ITEMS é um fórum digital do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais (SSRC).
[3] Eduardo S. Brondizio et al, “Re-conceptualizing the Anthropocene: A Call for Collaboration,” Global Environmental Change:Human and Policy Dimensions 39 (July 2016): 318–327.
[4] Eduardo S. Brondizio, Stefano Fiorini, and Ryan Adams, “History and Scope of Environmental Anthropology,” in Routledge Handbook of Environmental Anthropology, ed. Helen Kopnina and Eleanor Shoreman-Ouimet (New York: Routledge, 2016), 10-30.
[5] For instance, among many: Emilio F. Moran, ed., The Ecosystem Approach in Anthropology: From Concept to Practice (Ann Arbor, MI: University of Michigan Press, 1991), 476.
[6] Amy R. Poteete, Marco A. Janssen & Elinor Ostrom. Working Together Collective Action, the Commons, and Multiple Methods in Practice (Princeton University Press, 2010), 376.
[7] Elinor Ostrom, “A General Framework for Analyzing Sustainability of Social-ecological Systems,” Science 325, no. 5939 (July 2009): 419–422.