A BPBES – Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (sigla em inglês) tem como proposta central inserir as questões acerca da biodiversidade e qualidade de vida das pessoas como elemento estratégico de política pública, contribuindo para um modelo inovador e sustentável de desenvolvimento socioeconômico do Brasil. “É trazer a biodiversidade e serviços ecossistêmicos para dentro do processo de desenvolvimento do país ao invés de tratá-los como apêndices”, explica Dr. Fabio Scarano, um dos coordenadores da Plataforma. Para isso, a Plataforma Brasileira pretende reunir o conhecimento disponível e de ponta para elaborar o primeiro Diagnóstico Brasileiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos no Brasil.

O Brasil se engajou e lançou em fevereiro de 2017 a versão nacional da plataforma, a BPBES, inspirada na Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – IPBES (sigla em inglês). Atualmente a BPBES está organizada como um Grupo de Trabalho da SBPC, que conta com apoio do MCTI/CNPq, do SiBBr, do Programa Biota/Fapesp e da Fundação Brasileira para Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

Para que o 1° Diagnóstico seja bem sucedido é fundamental trazer para a colaboração diferentes setores da sociedade que são diretamente ligados à questão da biodiversidade e bem-estar humano. “Inicialmente a ideia é identificar os atores, apresentar a proposta, coletar as principais sugestões e críticas e engajá-los nas elaborações e revisões dos diagnósticos que serão produzidos”, explica Dra. Maíra Padgurschi, Young Fellow da Plataforma.

Propositivo ao invés de prescritivo

​O primeiro diagnóstico, com lançamento previsto para junho de 2018, terá como público alvo tomadores de decisão tanto do setor público como privado. O documento conterá sínteses do conhecimento sobre as tendências em cada bioma (Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Pampa, incluindo sistemas aquáticos continentais e zonas costeiras e marinhas), seus principais vetores de mudança e a sinergia entre eles, as interações multiescalares entre as dimensões ecológica e social; as opções de governança, arranjos institucionais de tomadas de decisão, seguindo a lógica do Marco Conceitual do IPBES (leia aqui). “O diagnóstico não pretende ser prescritivo, ou seja, não dirá o que cada um deve ou não fazer. Terá um tom propositivo, buscando incluir a biodiversidade e serviços ecossistêmicos no centro do processo de desenvolvimento do país. O objetivo não é o de dar apenas más notícias, mas, sobretudo, enfatizar soluções que já existem, já estão em curso, o seu potencial de replicação e sua escalabilidade”, explica Scarano.

Para isso, espera-se caminhar para diversificar o quadro autoral do Diagnóstico em diferentes dimensões, tanto em termos regionais, de biomas, de ambientes (aquático terrestre, marinho), quanto de tipo de conhecimento (científico, indígena e tradicional). Parte dos autores também integra o grupo de autores da Plataforma Internacional.

Mais diálogos

Para garantir que o Diagnóstico possa pautar as ações dos tomadores de decisão a BPBES pretende estabelecer diálogo e incorporar as contribuições decorrentes de discussões com diversos grupos focais envolvidos com as questões de biodiversidade e serviços ecossistêmicos, incluindo detentores de conhecimento indígena e tradicional, ONGs e o setor privado.
Como ponto de partida foi elaborado o documento base “Contribuições para o Diálogo Intersetorial: a Construção do Diagnóstico Brasileiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos”. Até o presente momento, já foram mobilizados técnicos do governo de diferentes ministérios e representantes de organizações não governamentais. Estão previstas, por exemplo, reuniões com representantes do setor privado, grupos indígenas, grupos internacionais e profissionais de mídia. A ideia é que estas contribuições enriqueçam a estrutura final do Diagnóstico e apontem caminhos para os tomadores de decisão.​

Direto ao ponto

​Simplesmente disponibilizar informações científicas de alta qualidade não garante seu uso. Trabalhar a informação, com a orientação dos grupos de interesse potencializa seu uso, alcance e impacto. “Nós vivenciamos isto no Estado de São Paulo com o Programa Biota. Começamos o Programa de uma forma ingênua achando que disponibilizando gratuitamente a informação na internet era suficiente para que gestores públicos utilizassem a informação. Não é. Você precisa traduzir esta informação para uma linguagem que possa ser utilizada, que foi a elaboração dos mapas ‘Áreas prioritárias para conservação e restauração da biodiversidade’. Os mapas orientaram a Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo a delimitarem o zoneamento de plantio de cana-de-açúcar no estado. Enfim, você consegue ter um instrumento que pode ser utilizado pelo gestor. É essa ideia da Plataforma Brasileira”, sublinha o coordenador do Programa Biota e da BPBES, Carlos Joly.

2017-09-18T19:37:05+00:00

Sobre o Autor:

Bióloga, doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), atua na área de planejamento e avaliação de CT&I, com ênfase em gestão de programas de pesquisa em biodiversidade. Estuda Jornalismo Científico e acredita que a informação e o diálogo (+ uma pitada de esperança) são o caminho das melhores escolhas.