Américas: o valor da Natureza equivale ao do PIB

Com apenas 13% da população mundial, o continente responde por 22,8% da pegada ecológica global.

 

MEDELIM – O valor econômico da natureza nas Américas é estimado em ao menos US$ 24,3 trilhões por ano, sem considerar o ambiente marinho. Isto equivale ao PIB total do continente. Estes valores ambientais são invisíveis na precificação de produção de alimentos, do abastecimento de água, da geração de energia, e até mesmo na contribuição para a saúde humana. Quando não se contabilizam estes valores no atual modelo de desenvolvimento e estilo de vida, significa seguir por uma trajetória que trará consequências irreversíveis para o planeta e para a existência humana.

Esta é uma das conclusões que podem ser extraídas do Sumário para Tomadores de Decisão referente ao Diagnóstico Regional das Américas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, aprovado em Medelim, Colômbia, durante a Sexta Sessão da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES). O documento foi aprovado juntamente com mais quatro Diagnósticos Regionais: África, Europa e Ásia Central e, Ásia e Pacífico. Juntos os relatórios reuniram mais de 550 experts de cerca de 100 países.

“Nas Américas, a rica biodiversidade contribui imensamente para a qualidade de vida, ajudando a reduzir a pobreza enquanto fortalece as economias e os meios de subsistência”, explica Jake Rice, um dos coordenadores do diagnóstico. Entretanto, como explica Carlos Joly, membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas da IPBES e professor na Universidade de Campinas “a perda de serviços ecossistêmicos tem custos sociais altíssimos, que não estão sendo contabilizados na balança comercial”.

O continente representa 13% da população mundial e responde por quase 1/4 da pegada ecológica global. “A maioria dos países está usando mais intensivamente a natureza do que a média global e excedendo a capacidade de reposição dos recursos”, afirmou Jake Rice, um dos coordenadores do Diagnóstico das Américas.

Evidentemente há contrastes entre as pegadas ecológicas do cidadão médio americano quando comparada com o cidadão médio brasileiro. As generalizações dentro do documento podem ser consideradas pelo tomador de decisão que atua em escalas nacionais ou subnacionais adequando ao seu contexto. “A ideia é que cada governo ou iniciativa se inspire para criar ações dirigidas a sua realidade, assim como ocorreu e ocorre com o Relatório Temático de Polinização”, explica Anne Larigauderie, secretária executiva da IPBES.

As diferenças no desenvolvimento econômico e da pegada ecológica dos países das Américas, ao lado da busca pelo desenvolvimento, impõem desafios ao uso sustentável dos recursos naturais. “A nossa preocupação é que precisamos melhorar a qualidade de vida sem optar pela vertente consumista. O planeta não comporta que todos tenham uma pegada semelhante à do cidadão norte-americano médio, considerando os parâmetros e índices atuais, mas isso não quer dizer que não temos direito a uma qualidade de vida semelhante” argumenta Joly.

Para se ter ideia, entre a chegada dos europeus na América e hoje, calcula-se uma redução em média de 30% das populações de espécies por hectare. A principal causa é a conversão de áreas naturais em áreas antropizadas, poluição e sobre-exploração de recursos naturais. Estima-se que 65% das contribuições da natureza para as pessoas (leia mais sobre este conceito desenvolvido pela IPBES aqui) estejam diminuindo e 21% diminuindo fortemente.

Se o cenário não se alterar, em 2050, as mudanças climáticas se tornarão o principal vetor de pressão impactando negativamente a biodiversidade nas Américas. E então, somadas a outros vetores, a redução média das populações de espécies por hectare poderá atingir 40% até a metade do século XXI.

Opções de governança

Nem tudo está perdido. O sopro de esperança veio na notícia de aumento no número de áreas naturais sendo protegidas, por parte de alguns países. Entre 1970 e 2010 houve um aumento de 17% nas ‘áreas-chaves para biodiversidade’, embora menos de 20% destas ainda estejam protegidas.

Outro importante achado foi o reconhecimento das terras indígenas como um instrumento poderoso para proteger a natureza. Os povos indígenas e comunidades locais criaram e continuando criando uma diversidade de sistemas policultivos e agroflorestais, que possibilita o aumento da biodiversidade e o manejo das paisagens de forma sustentável; e portanto, muito temos que aprender com eles. No entanto, a retirada destes povos e comunidades de seus territórios, e consequente mudança nos modos de vida, tem em levado a uma perda do senso de pertencimento, idioma e conhecimentos. Mais de 60% das línguas das Américas e as culturas associadas a elas estão ameaçadas ou desaparecendo.

Projetos de restauração igualmente são opções de política interessantes para conter o declínio da biodiversidade e das contribuições da natureza para as pessoas. Estes projetos foram implementados em escalas locais em diferentes biomas/ecossistemas em todas as sub-regiões. Embora a restauração ecológica possa acelerar a recuperação do ecossistema, os custos iniciais podem ser significativos, a reversão completa da degradação é incerta e aspectos não-materiais (como culturais e espirituais) talvez nunca sejam restituídos para alguns povos.

Outro ponto acenado por Joly buscar se criar indicadores de desenvolvimento que incorporem qualidade de vida. “Enquanto a comparação é feita usando PIB, nossa única possibilidade e continuar devastando para nosso PIB médio subir. Quando outros componentes do desenvolvimento começam a ser contabilizados podemos pensar em outras estratégias de desenvolvimento; IDH, por exemplo, já é um pouco melhor. Mas que tal se incorporarmos a estes índices os benefícios de ainda termos áreas de floresta ou de cerrado nativo, de podermos deitar nas praias do litoral norte e curtir a maravilhosa vista da Mata Atlântica recobrindo a Serra do Mar?”.

E finaliza Cristiana Seixas, uma das co-coordenadoras do diagnóstico das Américas, “Políticas são importantes, mas outros fatores têm que ser levado em consideração, principalmente a nossa mudança hábitos no consumo de alimentos, água, vestimentas, madeira e energia. Precisamos consumir de forma mais responsável e sustentável”.

Sobre a IPBES

A IPBES é um órgão intergovernamental independente, criado em 2012. É composto por 129 governos membros e visa forneces aos formuladores de políticas diagnósticos sobre o estado do conhecimento sobre a biodiversidade, os ecossistemas e as contribuições da natureza para as pessoas.Também é chamado de “IPCC da biodiversidade”.
O Diagnóstico das Américas foi coordenado por Dr. Jake Rice (Canadá), juntamente com a Dra. Cristiana Simão Seixas. (Brasil – UNICAMP e BPBES) e Profa. Maria Elena Zaccagnini (Argentina). A participação do time de pesquisadores brasileiros no Diagnóstico das Américas foi expressiva com 13 especialistas. Todos participantes da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

 

2018-03-24T14:25:12+00:00

Sobre o Autor:

Bióloga, doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), atua na área de planejamento e avaliação de CT&I, com ênfase em gestão de programas de pesquisa em biodiversidade. Estuda Jornalismo Científico e acredita que a informação e o diálogo (+ uma pitada de esperança) são o caminho das melhores escolhas.