Espécies Exóticas Invasoras (EEI) são organismos que conseguem se reproduzir e se dispersar fora de sua área de distribuição natural, causando danos à biodiversidade nativa, impactando ecossistemas e o bem-estar humano. Além do impacto global, apenas no Brasil, estima-se a existência de mais de 500 espécies invasoras, sendo que apenas 16 delas foram responsáveis por perdas econômicas que variam entre 77 e 105 bilhões de dólares. Em 2024, o Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos já caracterizava, de modo mais aprofundado, o tema no contexto brasileiro e apontava uma relevante lacuna: a falta de informações sobre as EEI em territórios e comunidades tradicionais, como Territórios Indígenas e Quilombolas.

Nesse cenário, a inclusão de perspectivas de povos e conhecimentos tradicionais é fundamental para um panorama mais completo sobre a dinâmica das espécies invasoras nos diferentes contextos do Brasil. Assim, em outubro de 2025, um seminário virtual reuniu cerca de 30 lideranças indígenas, quilombolas, pescadores e cientistas para discutir uma ameaça crescente aos biomas brasileiros. Coordenado pela Dra. Michele de Sá Dechoum, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o evento trouxe à tona os desafios não apenas nas esferas biológica e econômica, mas nos impactos sociais, culturais e até da soberania alimentar.

As histórias por quem vive a história

Feijão-mucuna (Mucuna pruriens) – Renan Kawire Malaure Txicão

Um representante indígena narrou como o feijão- mucuna (Mucuna pruriens) se tornou uma praga agressiva em seu território após ser introduzido sob a promessa de que a planta seria benéfica para recuperar áreas degradadas. Por falta de conhecimento sobre o histórico e a forma correta de manejo, a espécie espalhou-se rapidamente e passou a eliminar as plantações tradicionais de mandioca, além de matar árvores e diversas plantas nativas ao cobri-las totalmente. Essa situação demonstra o perigo da introdução e da disseminação de espécies sem uma análise de risco do potencial de invasão e sem o consentimento livre e esclarecido das comunidades diretamente afetadas.

Camarão-tigre (Penaeus monodon) – Célia Regina Nunes das Neves

No ambiente aquático, a situação é igualmente alarmante. O camarão-tigre (Penaeus monodon)- nativo de regiões costeiras dos Oceanos Índico e Pacífico – foi introduzido pela carcinicultura, substituindo o camarão-branco nativo no estuário amazônico. Ao mesmo tempo em que as comunidades demonstram proatividade ao monitorar e enviar fotos da espécie para órgãos responsáveis, narram um sentimento de frustração pela falta de retorno e o descompasso entre técnicos e populações afetadas sobre os procedimentos que estão sendo adotados para lidar com o problema:
“A gente encaminhou de novo para lá para o pessoal do ICMBIO as fotos que ele mandou tudo isso. Então a gente, de alguma forma, os órgãos do governo estão sabendo dessas coisas e a gente não sabe como é que esses procedimentos estão se dando”, disse um dos participantes.

A tradição como ferramenta de manejo

Entre a técnica e a tradição, o manejo dessas espécies em territórios tradicionais enfrenta barreiras legais e técnicas. Em Terras Indígenas, o uso de herbicidas é restrito, o que exige métodos laboriosos de controle manual por brigadas e queimas controladas. No entanto, surgiu uma estratégia promissora: a “manejo comunitário”. Lideranças observaram que a presença humana constante, com o plantio de espécies regeneradoras como o pequi e o urucum, é mais eficaz para conter o avanço do capim invasor do que técnicas mecanizadas extensivas, além de reduzir impactos negativos causados por uso de compostos químicos.

Além do manejo comunitário, outras formas de manejo mencionadas incluem: o Manejo do fogo, com queimas controladas em casos específicos; o Uso utilitário de espécies invasoras, associando a remoção dessas espécies, a utilização delas para outras finalidades; e, no caso de espécies exóticas aquáticas, a Pesca intensiva, para redução drástica e futura eliminação dos invasores.

Prevenção como Caminho

A principal conclusão do relatório é que a prevenção é a medida mais custo-efetiva. Uma vez estabelecida, a erradicação de uma espécie invasora é extremamente difícil e cara, sendo muitas vezes inviável. O documento propõe o fortalecimento de redes de monitoramento e a inclusão definitiva do saber tradicional nos protocolos oficiais de detecção precoce. Como destacado pela coordenação do evento, o engajamento público e a escuta das comunidades que vivem no território são fundamentais para que o Brasil consiga mitigar os danos de uma tendência que pode aumentar em até 30% até o fim do século.

“Devemos ter a implementação de medidas que tanto impeçam a introdução de novas espécies no país quanto a disseminação daquelas que já foram introduzidas. A prevenção é a estratégia de manejo mais barata e efetiva, e muito pouco se faz nesse sentido no nosso país. E quem sente primeiro os impactos negativos depois que as espécies invasoras são introduzidas são as pessoas que têm maior contato ou que dependem de ambientes naturais” destacou a Profa, Dra. Michele de Sá Dechoum, coordenadora do Relatório.

O relatório “Povos e comunidades tradicionais no manejo de espécies exóticas invasoras: oportunidades e desafios” está disponível para download no website da BPBES. 

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Imagem de capa: Tambaqui (Colossoma macropomum)¹ – André Nogueira

¹O Tambaqui é considerado nativo da bacia do Rio Amazonas, mas exótica e invasora fora da sua bacia de origem, como no Rio Araguaia. A espécie, introduzida em outras localidades para piscicultura, é uma ameaça socioeconômica e à biodiversidade local nessas novas áreas.