A recente decisão do governo dos Estados Unidos de se retirar da Plataforma Intergovernamental Científica e Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) (vide United States’ Announced Intention to Withdraw from Participation in IPBES) e do Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudanças Globais (IAI)(vide  Statement on the Withdrawal of the United States from the IAI) dois grandes parceiros da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), representa um grave retrocesso para a cooperação científica internacional e para a governança ambiental baseada em evidências. Somada à saída de dezenas de outras organizações multilaterais, essa decisão sinaliza um enfraquecimento deliberado do multilateralismo científico, pilar essencial para enfrentar a crise global da biodiversidade.

Para a BPBES, que atua na síntese de conhecimentos científicos e tradicionais para subsidiar políticas públicas, a retirada dos EUA compromete a integração regional do conhecimento, reduz fluxos de financiamento e aprofunda assimetrias históricas entre Norte e Sul Global. Tais impactos extrapolam as fronteiras norte-americanas e afetam diretamente o Brasil, a América Latina e o Caribe, regiões estratégicas para a conservação da biodiversidade global.

A IPBES — frequentemente descrita como o “IPCC da biodiversidade” — constitui o principal fórum intergovernamental dedicado a avaliar, de forma rigorosa e revisada por pares, o estado da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, traduzindo ciência em orientações políticas. Ao se afastar dessa plataforma, os Estados Unidos abrem mão de um espaço central de responsabilidade e liderança científica justamente em um momento em que a perda de biodiversidade figura entre as crises mais determinantes do século XXI. Essa decisão enfraquece a coerência da interface ciência–política e reduz o soft power do país na definição de prioridades globais, como conservação, restauração de ecossistemas e uso sustentável dos recursos naturais.

No âmbito regional, a saída dos EUA do IAI fragiliza uma das mais importantes redes de cooperação científica das Américas. Criado para promover a coprodução de conhecimento sobre mudanças globais, o IAI integra cientistas e tomadores de decisão em torno de desafios comuns, como extremos climáticos, segurança hídrica, perda de serviços ecossistêmicos e impactos socioambientais transfronteiriços. O enfraquecimento dessa rede compromete o compartilhamento de dados, a pesquisa comparativa e a formação de capacidades científicas, especialmente em países latino-americanos e entre jovens pesquisadores.

A política ambiental brasileira se beneficia do alinhamento com avaliações científicas internacionais que reforçam os compromissos nacionais com a conservação da biodiversidade, a restauração de ecossistemas e o uso sustentável. Especialmente quando temos um Congresso que sistematicamente tem destruído nossa legislação ambiental.

Um princípio fundamental compartilhado pela BPBES, IPBES e IAI é a promoção da produção equitativa de conhecimento, em que os países do Sul Global não são meros fornecedores de dados, mas sim formadores ativos de agendas de pesquisa e resultados relevantes para as políticas. A retirada dos EUA ameaça esse equilíbrio por, reduzir os fluxos de financiamento que apoiam a participação inclusiva; por limitar os intercâmbios inter-regionais que enriquecem os processos de avaliação; e por reforçar as assimetrias na governança ambiental global.

Para o Brasil, país megadiverso e fortemente dependente dos serviços ecossistêmicos, as avaliações da IPBES e as pesquisas apoiadas pelo IAI são referências fundamentais para combater a desinformação, apoiar o planejamento de longo prazo e fortalecer políticas públicas ambientais — ainda mais em um contexto de fragilização da legislação ambiental no âmbito nacional. Essas instituições constituem infraestruturas estratégicas da governança ambiental global, cuja erosão reduz a capacidade coletiva de antecipar riscos e coordenar respostas eficazes.

A retirada dos Estados Unidos deve ser compreendida como parte de um afastamento mais amplo de arenas multilaterais científicas. Esse movimento não apenas enfraquece a resposta global às crises ambientais, como também reduz a própria capacidade dos EUA de proteger seus ecossistemas e sua população. O reengajamento com a IPBES e o IAI não deve ser visto como concessão política, mas como um investimento essencial na ciência, na cooperação internacional e na construção de um futuro ambientalmente sustentável e socialmente justo.

 

Foto: IISD/ENB | Sean Wu