Sir Robert Watson é o segundo presidente da IPBES (Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), após Professor Abdul Hamid Zakri (2013-2016). No próximo ano, 2019, Sir Watson completa seu mandato deixando como legado os resultados do primeiro Programa de Trabalho da IPBES 2015-2019, que inclui a aprovação de sete diagnósticos e a finalização de um oitavo.

Carrega no seu currículo inúmeras posições no governo dos EUA, Inglaterra e organismos multilaterais na interface ciência-política. Conduziu diagnósticos globais importantes como do IPCC durante 1997-2002, Global Biodiversity Assessment, Millenium Ecosystem Assessment, entre outros. O reconhecimento do seu trabalho revela-se em nobres condecorações (Order of Saint Michael and Saint George e Fellow of the Royal Society of London for Improving Natural Knowledge) e prêmios consagrados, incluindo a participação no Prêmio Nobel da Paz, atribuído para o IPCC em 2007.

Sir Robert Watson, presidente da IPBES. Foto: Joaquim Sarmiento (AFP/Getty Images)

Sua conduta é marcante. Envolve cavalheirismo, bom-humor, otimismo e paixão. Negociador experiente, Bob, como é conhecido pela equipe do IPBES, não hesita em ceder, negar e, sobretudo, conciliar. Não esconde sua desaprovação, balançando sutilmente a cabeça de um lado para o outro, colocando a mão na face e apertando os olhos, acariciando sua barba grisalha e descontando em seus cabelos que não duram muito tempo penteados. Ao mesmo tempo, não economiza sorrisos e provoca risadas repetidamente na audiência.

O presidente da IPBES tem suas superstições. Diz que sempre traz duas gravatas para ocasiões especiais. Uma amarela com galinhas chinesas. Outra de Dodô (uma espécie de ave extinta). A primeira ele usa quando ele está otimista, a segunda quando as coisas não vão bem.

Bob transita com traquejo e firmeza entre cientistas e representantes da diplomacia internacional. Sempre ao lado de Anne Laurigaudarie, a primeira Secretária executiva da IPBES, formam juntos uma dupla comprometida e descontraída.

Sir Watson é taxativo “Não podemos ter desenvolvimento sem proteger nossa biodiversidade”. Essa preocupação advém da estreita relação entre biodiversidade e segurança alimentar, energética , hídrico e da saúde humana, bem como continuidade das diversas culturas explicitadas nos relatórios. E explica “a forma como manejamos a biodiversidade e os ecossistemas é uma questão moral, social, ambiental e de desenvolvimento. As pessoas mais vulneráveis são pessoas pobres, a maioria em países em desenvolvimento.”

Sobre os Diagnósticos Regionais de Biodiversidade e Contribuições da Natureza para as Pessoas preparados pela IPBES e lançados na última sexta-feira, diz que há más e boas notícias.

A má notícia é que “infelizmente a biodiversidade continua sendo perdida em todos os continentes.” Uma das razões é que “a biodiversidade e as contribuições da natureza para as pessoas parecem, para muitos, algo acadêmico e distantes de nossas vidas diárias”. Contudo, segue Sir Watson “nada poderia estar mais longe da verdade – eles são a base da nossa alimentação, água limpa e energia. Eles estão no centro não apenas de nossa sobrevivência, mas de nossas culturas, identidades e prazeres da vida ”

Detalhe da gravata da sorte do presidente da IPBES. Foto: Felipe VIllegas (Instituto Humboldt).

E alerta “se continuarmos do jeito que estamos, isto é, do jeito que produzimos nossa comida, do jeito que usamos nossa energia, continuaremos perdendo biodiversidade e aumentando as taxas de perda de contribuições da natureza, estamos traçando uma trajetória insustentável. Se não mudarmos, em 2050 as mudanças climáticas serão a principal causa de perda de biodiversidade. E, mudanças climáticas e biodiversidade andam juntas quando falamos de desenvolvimento, pois, a população do mundo vai crescer e a pressão sobre alimentos, energia e água também”

As boas notícias dos Diagnósticos aprovados, segundo Watson, é que “disponibilizamos a melhor evidência disponível, reunida pelos principais especialistas do mundo, apontando agora para uma única conclusão: devemos agir para deter e reverter o uso insustentável da natureza – ou arriscar não apenas o futuro que queremos, mas até mesmo as vidas que atualmente levamos. Felizmente, as evidências também mostram que sabemos como proteger e restaurar parcialmente nossos ativos naturais vitais.”

Embora todas as Metas de Aichi não seja atingidas, houve um bom progresso em algumas e pouco em outros, e dá um exemplo, “temos mais áreas protegidas, mas isto ainda não é suficiente.”

E coloca, “os governos precisam reconhecer que temos um problema e felizmente temos tempo para agir” e frisa “também precisamos de mudanças comportamentais, de agricultura sustentável, usar adequadamente tecnologias e parar de usar combustíveis fósseis. Precisamos de produção sustentável e consumo sustentável. Não podemos desperdiçar água, comida, energia. Precisamos de políticas nacionais, regionais, globais, interações com os setores produtivos, como as ações de mudanças climáticas. Enfim, trabalhar juntos para a construção de um futuro sustentável”.

Finaliza, “o futuro demanda uso sustentável, e a hora para agir é agora, ontem e anteontem.”

Esperamos que Sir Watson continue usando sua gravata amarela de galinhas chinesas.

 

 

 

2018-03-24T19:00:43+00:00

Sobre o Autor:

Bióloga, doutora em Política Científica e Tecnológica (Unicamp), atua na área de planejamento e avaliação de CT&I, com ênfase em gestão de programas de pesquisa em biodiversidade. Estuda Jornalismo Científico e acredita que a informação e o diálogo (+ uma pitada de esperança) são o caminho das melhores escolhas.